Saúde mental, um direito

A psicoterapia é uma necessidade e não um luxo. Cada vez mais nos orientamos para uma sociedade onde o cuidado com a saúde mental deixa de ser marginalizado e passa a ser um factor corrente, parte do nosso quotidiano.
 
Os problemas de saúde mental sempre estiveram presentes, contudo, por condicionalismos sócio-económicos, pelas características do nosso contexto, relegámos o cuidado com nós mesmos para segundo plano. E fomo-nos fazendo pessoas assim, sem um verdadeiro saber sobre nós.
 
Estamos muitas vezes suspensos, ocupados com tudo menos connosco, distantes de nós. Quando damos por nós, encontramos no espelho o reflexo de alguém que não conhecemos, o eco distante de uma pessoa que fomos ou gostaríamos de ser.
 
Enchemo-nos de dúvidas e fazemos muito pouco com elas. Atiramo-las para um canto resguardado e não voltamos a pegar-lhes até que esse canto transborde com partes de nós que se querem fazer ouvir.
 
A pandemia que nos catapultou, por necessidade, para o refúgio das nossas casas, reorganizou também o nosso modo de estar, fez-nos reavaliar as nossas prioridades. E percebemos que a busca por sentido, o cuidado com o nosso bem-estar, não representam um luxo, mas sim um princípio básico da nossa existência que tende a ficar por atender.
 
‘Não tenho tempo para isso’ ressoa facilmente no interior de nós. Vamos protelando aquilo que nos aflige para o dia de amanhã e vamos alimentando o tão conhecido ‘hoje sem sentido’. Aquilo que é a uma das mais sagradas necessidades do ser, fica ofuscada pela nossa falta de tempo, pelo nosso trabalho, pelas desculpas todas que empurramos para cima disto, na esperança de uma resolução secreta e silenciosa.
 
O nosso admirável mundo novo vive aqui, naquilo que temos para descobrir, no propósito para o qual nos orientamos e que ignoramos ocasionalmente, que esperamos que se mostre sem fazermos, dentro do possível, pouco ou nada.

É preciso percebermos que problemáticas como a ansiedade não passam sem falarmos sobre elas, que estar triste e vulnerável não é uma fraqueza. Precisamos de encarar tudo isto.
 
Voltar a repetir os mesmos padrões de sempre não chega, não basta esperar que os problemas passem. Só precisamos de abandonar as concepções arcaicas a que nos habituaram e começar a perceber que o bem-estar não é supérfluo e a saúde mental é um direito.